19 de setembro de 2011

O erro e o preconceito

"Quando algumas pessoas, seguindo um hábito tradicional da nossa cultura, se queixam dos "erros" cometidos por outras no uso da língua, é comum elas apresentarem algumas supostas explicações para o surgimento de tais "erros": o descaso das pessoas pela própria língua, a corrupção moral da juventude, a falta de gosto pela leitura, a incompetência dos professores, os modismos criados pelos meios de comunicação e pela publicidade, a invasão das palavras estrangeiras, e por aí vai...

Essas acusações tradicionais (e quase sempre irracionais) se baseiam numa série de preconceitos que tentam interpretar os fenômenos sociais e culturais pela ótica exclusiva do senso comum, sem recorrer a nenhum tipo de explicação científica sugerida pela investigação rigorosa e pela teorização consistente. Todas essas ideias se enquadram bem na categoria das superstições, conjunto de crenças, temores e práticas sem fundamento na realidade das coisas.

Infelizmente, ao contrário de tantas outras superstições infundadas que foram desmascaradas pela ciência, rejeitadas pelo convívio democrático e abandonadas pela maioria das pessoas instruídas, as superstições linguísticas permanecem vivas e fortes na nossa cultura, como se fossem dogmas sagrados capazes de atrair a ira divina sobre quem não acreditar neles...

Examinando a história da nossa língua e de muitas outras, a gente descobre que essa "tradição da queixa" é muito antiga. É mesmo engraçado: a suposta ruína da língua é um processo que nunca chega ao fim - o português, por exemplo (a julgar pelo que se escreve sobre ele há trezentos anos!), sempre esteve à beira do colapso, do desaparecimento puro e simples. As acusações de que as pessoas estão matando a língua aparecem em textos publicados há séculos , mas a língua, estranhamente, nunca termina de morrer. Segundo essa linha de pensamento, o português, desde que se firmou como língua de um povo soberano, há quase mil anos, é um idioma permanentemente moribundo".


Esse texto do linguista Marcos Bagno (do livro "Não é errado falar assim") é legal, pois mostra a "irracionalidade" e a falta de embasamento do pensamento mais comum em relação à nossa língua... Para mim, na verdade, ele desmascara essas crenças, mostrando que elas não passam disso, de crenças, sem nenhum suporte a não ser o preconceito e o conservadorismo descabido.

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