8 de fevereiro de 2011

Como se erros emocionais fossem escolhas, e não entregas.

Sabe aquela situação em que, em um átimo de segundo, em meio a um diálogo, você relembra fatos há muito ocorridos? Nessa situação, muitas vezes, você ri sozinho - ou fecha a cara - e é questionado sobre sua reação. Normal.

Pois é, o novo livro de Tezza narra a vida inteira de duas pessoas (Donetti e Beatriz) utilizando os entremeios de um diálogo trivial, esses átimos de segundo que você admitiu ser normal nos seus diálogos rotineiros.

Ação entre os protagonistas não ocorre quase nenhuma. Isso me causou certa agonia, certa angústia, pois a solidão a dois, em meio à multidão, é claustrofóbica: duas pessoas dividindo um espaço, um momento, mas totalmente presas a suas biografias. Os personagens revisam e justificam suas vidas com flashbacks que acabam compensando a falta de acontecimentos presentes e dando agilidade à narrativa.

O curioso é que acabamos conhecendo essas duas pessoas sob as suas próprias perspectivas dos acontecimentos, é como se cada personagem tomasse a vez de narrador quando o fato narrado lhe diz respeito. Eu gostei disso.

Minhas frases preferidas:

"O problema é que a paz não serve para nada; é apenas uma sala de espera confortável."

"As maçãs dos rosto vermelhas, a pele uma sensitiva acendendo-se por um segundo, e ela detestou-se por se revelar tão frágil. Ruborizar-se: que palavra antiga! O rubor é um anacronismo evolutivo, assim como o dente do siso."

"É como se levássemos as mulheres para a cama apenas para conversar melhor com elas, o que queremos mesmo devassar é a alma, o corpo é só a porta de entrada."

"Como se erros emocionais fossem escolhas, e não entregas."

Se você é do tipo de leitor ligado a fatos, essa não é uma boa leitura. Se você é detalhista, do tipo que divaga e que vê significados em mínimos gestos, você vai gostar de conhecer Donetti e Beatriz.

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