8 de fevereiro de 2011

Os cus de judas de mim.

"Entretanto, e se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou seja, uma espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis: a cama não range, é improvável que o autoclismo do andar de cima vomite a esta hora o conteúdo limoso do seu estômago, perturbando as carícias sem ternura que são como o motor de arranque do desejo, nenhum de nós sente um pelo outro mais do que uma cumplicidade de tuberculosos num sanatório, feita de melancólica tristeza de um destino comum; já vivemos demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos, de vibrarmos nas tripas e na alma exaltações de aventura, de nos demorarmos tardes a fio diante de uma porta fechada, de ramo de flores em riste, ridículos e tocantes, a engolir cuspos aflitos. O tempo trouxenos a sabedoria da incredulidade e do cinismo, perdemos a franca simplicidade da juventude com a segunda tentativa de suicídio, em que acordamos num banco de hospital sob o olho celeste de um São Pedro de estetoscópio, e desconfiamos tanto da humanidade como de nós mesmos, por conhecermos o egoísmo azedo do nosso caráter oculto sob as enganadoras aparências de um verniz generoso. Não é em ti que não acredito, é em mim, na minha repugnância em me dar, no meu pânico de que me queiram, na minha inexplicável necessidade de destruir os fugazes instantes agradáveis do cotidiano, triturando-os de acidez e ironia até os transformar na chata amargura habitual. O que seria de nós, não é, se fôssemos de fato felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa do colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afeto sincero, incondicional, sem exigências de troca? A esses, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda. De forma que as relações sexuais constituem entre nós, percebe, uma violação mole, uma apressada exibição de ódio sem júbilo, a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão, à espera de reencontrarem o fôlego que lhes foge para verificarem a hora no relógio de pulso à cabeceira, se vestirem sem uma palavra, examinarem sumariamente no espelho do quarto de banho a pintura e o cabelo, e partirem, a coberto da noite, ainda húmidos do outro, a caminho da solidão das suas casas."

Quisera eu essas palavras serem minhas, sinto ciúmes dessas palavras como se de mim elas fossem filhas, sinto inveja de quem as escreveu por delas ser dono... Não tem jeito, há vezes em que os outros falam por mim, e esse trecho do livro "Os cus de Judas" de Lobo Antunes, escritor português, nesse momento, fala por mim. Às vezes, um texto traduz tanto um sentimento meu que chego a pensar que eu poderia ter escrito aquilo. Claro que não poderia, eu sei, mas... quanto mais particular, mais universal. Isso é literatura.

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